Semana Mundial do Brincar 2022

Brincar é humano e necessário

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte

Titãs, 1987

É com grande alegria que anunciamos o tema e a data da Semana Mundial do brincar 2022. Neste ano, a Aliança pela Infância convida a todos e a todas – de todas as idades- para “Confiar na força do brincar”, inspiração escolhida para espalhar o brincar como um ato essencial na vida dos seres humanos.

O brincar nutre a confiança da criança em si mesma, nos outros e no mundo. É assim que o invisível se torna visível, e que o impossível se torna possível. Confiar no brincar é confiar na alegria, é confiar no encontro. Brincar é estar no mundo e confiar que ele vai dar certo e que pode ser melhor. 

Por isso, neste ano, durante a Semana Mundial do Brincar, a Aliança pela Infância convida a todos a acreditar no brincar como um ato transformador, pois brincando a criança aprende a se relacionar com o mundo a sua volta, cria a si mesma e cria novos mundos possíveis. (Aliança pela infância, 2022)

O brincar é potente, “Confiar na força do brincar” é acreditar que ele é essencial em todas as fases de nossas vidas. Será que brincamos apenas na infância? Feche os olhos e pense nos momentos bons que você teve em sua vida, desde a infância até a vida adulta, lembre-se também das melhores ocasiões que teve na escola ou em outros espaços de convivência. Lembrou? Aposto que na maior parte desses pedaços de memória o que apareceu foram momentos de afeto, conexão e brincadeira.

O lúdico está presente durante toda a vida do indivíduo, mas sobretudo na primeira infância. Na Educação Infantil, o brincar é condição essencial para a criança ter experiências que possibilitem o aprender e o direito de viver a sua infância na sua plenitude.

O filósofo Huizinga, em 1938, escreveu seu livro Homo Ludens, no qual argumenta que o jogo é uma categoria absolutamente primária da vida, tão essencial quanto o raciocínio (Homo sapiens) e a fabricação de objetos (Homo faber), então a denominação Homo ludens, quer dizer que o elemento lúdico está na base do surgimento e desenvolvimento da civilização. 

A palavra lúdica vem do latim ludus e significa brincar, mas neste brincar estão incluídos os jogos, brinquedos, brincadeiras, divertimentos e passatempos. É possível encontrar em livros de histórias relatos que comprovam que, em todas as épocas, os homens tinham suas formas e brincar e se divertir, ou seja, momentos lúdicos. (FOLTRAN; OLIVEIRA, p. 31)

Por que algo tão essencial e inerente ao ser humano vira coadjuvante em nossa vida?

Brincar é humano e necessário na constituição do sujeito, aproxima, cria vínculos, traz leveza, prazer… é expressão de um determinado grupo social, historicamente construído e nesse sentido, deve considerar e valorizar as diversidades em todos os seus aspectos: gênero, etnia, raça, social, cultural e os tempos de vida. É universal e em cada parte do planeta terra encontramos diferentes maneiras de como isso se manifesta.

Brincar é humano e necessário na constituição do sujeito, aproxima, cria vínculos, traz leveza, prazer… é expressão de um determinado grupo social, historicamente construído e nesse sentido, deve considerar e valorizar as diversidades em todos os seus aspectos: gênero, etnia, raça, social, cultural e os tempos de vida. É universal e em cada parte do planeta terra encontramos diferentes maneiras de como isso se manifesta.

O que será que aconteceria se brincar fosse levado a sério? Como seria a construção das cidades? Os currículos? As escolas? A interação dos adultos? As relações intergeracionais?

Muito se avançou nesse debate, contudo ainda temos um grande caminho a percorrer. É sabido que muitos dos espaços que utilizávamos para brincar foram restringidos. A falta de segurança, sobretudo nas grandes áreas urbanas, é uma das causas responsáveis por essa restrição. A rua, praças, terrenos vazios, parques públicos, clubes, QUINTAIS antes espaços comuns de brincadeira, foram perdendo a sua potência. O que foi colocado no lugar? É possível pensar em novos espaços, novas formas de brincar e, ainda, resgatar outras tantas existentes por aí. Qual o papel da escola na garantia desse direito dos(as) educandos(as)?

Além de toda problemática do aumento do trânsito, violência, moradias cada vez menores e escasso tempo dos adultos responsáveis, um outro fator também é muito importante na diminuição do brincar livre e criativo são as telas. Cada vez mais cedo e por maior tempo as crianças são absorvidas por elas. É muito comum ver bebês com celulares, tablets ou assistindo TV. Esse tipo de hábito é relativamente novo, ainda não sabemos a longo prazo quais as consequências no desenvolvimento humano. A curto prazo há diversas pesquisas que mostram como o aumento de telas está diretamente relacionada a um aumento de miopia, diabetes e colesterol alto em crianças entre diversas outras doenças, por isso alguns médicos andam receitando: Natureza! Sim, porque nela as crianças podem correr, pular, saltar, inventar, interagir com outros, testar limites do próprio corpo, aprender a lidar com o tédio e o ócio, ter contato com a famigerada “vitamina S” fortalecendo assim seu sistema imunológico, além de conhecer ambientes naturais, afinal a gente só cuida do que tem amor e conhece, não é mesmo? Por isso é de suma importância resgatar o brincar livre e desemparedado, do simples, das interações, do olho no olho.

Não é preciso brinquedos caros para brincar, quantas vezes vemos crianças preferindo brincar com a caixa do que com o próprio brinquedo? O principal recurso para brincar é a disponibilidade e a criatividade. Dizem que brincar é o maior exercício de liberdade que um sujeito pode experimentar.

Nossa rede promove e respeita o direito dos sujeitos de brincar, revelado no nosso QSN:

Nosso principal objetivo é o desenvolvimento integral dos educandos, portanto, é preciso articular as experiências e os saberes de todos em situações significativas, em ambientes e ações planejadas intencionalmente que favoreçam as aprendizagens por meio do brincar, das interações, favorecendo a exploração, pesquisa e as descobertas. (GUARULHOS, 2019)

Mas o que acontece quando brincamos?

É por meio da brincadeira que a criança estrutura sua vida, expressando emoções, estreitando vínculos afetivos, desenvolve a capacidade de confiar e sentir-se segura com os outros membros da espécie, conhece, cria e se apropria de regras, aprende a resolver conflitos e desafios, desenvolve a criatividade e imaginação, como também a cooperação e respeito ao outro, a coragem e a resiliência, descobre e nomeia sensações, amplia sua segurança e possibilidades do seu corpo na relação com os espaços, aprende a conviver, tomar decisões e relacionar-se. Brincadeiras são oportunidades de expressão e criação, linguagem essencial da criança e que encontram formas, espaços e tempos para sua manifestação.

Estudos como de Winnicott (1975), Pelegrini (2003) Fenalti (2003, 2004) indicam que o brincar possui propriedades benéficas para a saúde, interação, bem-estar de qualquer pessoa, independente da sua idade, pois as experiências com o brincar e com o lúdico minimizam eventuais perdas das capacidades físicas, psicológicas e sociais presentes na vida do idoso(FOLTRAN; OLIVEIRA, p. 31)

 É inquestionável, apesar de muitos ignorarem, a importância do brincar na infância, por isso nosso QSN, enfatiza tanto essa questão. Contudo, porque brincar é também importante em outras fases da vida?

Porque brincar é humano, necessário, prazeroso e do ponto de vista neurológico estimula as ligações sinápticas que preservam as capacidades cognitivas, motoras, relacionais logo deve permear toda a vida do sujeito.

A ludicidade é uma atividade que propicia prazer; por isso, ela não pode ser confundida com a brincadeira e com a visão do brincar que se apresenta, geralmente, para a infância. De acordo com Luckesi (2004), a atividade lúdica presente em todas as fases da vida cotidiana é aquela capaz de promover uma sensação de liberdade, de capacidade de fantasiar e entregar-se a esse processo ficcional. “O que a ludicidade traz de novo é o fato de que o ser humano, quando age ludicamente, vivencia uma experiência plena. […] Não há divisão” (LUCKESI, 2006, p. 2 in GUARULHOS, 2019)

Como podemos perceber não há um motivo sequer para que o brincar não possa fazer parte desde o dia do nosso primeiro suspiro até o último. Brincar é direito de todos os seres humanos, um ato político, e resgatar esse contato com a natureza, essas brincadeiras ancestrais é urgente não só por conta da pandemia como vimos, mas também uma nova forma de existência.

Um alemão extraordinário, Friedrich Schiller, diz que o homem só é inteiro quando brinca, e é somente quando brinca que ele existe na completa acepção da palavra homem. O brincar é algo espiritual. E não estou falando de religião, não. Não é nada disso. É algo ainda mais profundo, que tem a ver com a alma do homem. (Revista do brincar, v.3)

Vamos brincar então? Resgatar as memórias afetivas, vivenciar outras brincadeiras e fazer deste instante, momentos de encontro genuíno consigo e com os outros?